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Breve preâmbulo ético

Regra geral essencial: Jornalismo e Publicidade são incompatíveis, ponto.

A Constituição da República é a lei máxima de um Estado Democrático de Direito, ponto.

A livre manifestação de ideias, crenças e ideologias é um pilar inalienável de uma Democracia, ponto.

A isto chegam os ditos tempos de crise: partidos com representação parlamentar e sindicatos com representatividade nacional abespinhados por um spot publicitário à Informação da rádio pública.

A reboque de pseudo-argumentos democráticos, sindicatos e partidos políticos – todos e cada um deles embebidos na vertigem utilitarista da photo opportunity e da auto-promoção moralizante provam o que a ciência vem dizendo: os extremos tocam-se, fundem-se, são a mesma e inequívoca coisa.

Os argumentos de esquerda e direita são esgrimidos como um pronto-a-vestir ideológico talhado à medida das conveniências mais imediatas, ditadas pelo ciclo eleitoral em curso. Perceba-se, estão ciosos de controlo: controlo editorial e punitivo sobre a estação pública.

Lamentavelmente, a escola democrática – bandeira que tanto agitam – ainda não lhes ensinou – ou não foram eles capazes de aprender – que “rádio pública” não é sinónimo ou sequer familiar por afinidade de “rádio do aparelho partidário”.

Fica claro, bem gostariam, mas há que relembrar: estamos em Democracia.

Não percebem – ou à sombra de resultados práticos no curto prazo preferem não realizar – o que significa a separação dos poderes públicos.

O que reclamam, na mais prolixa escassez de inteligência, consegue aliás ser mais anedótico que o próprio instante publicitário: autofagia é a palavra, cegueira cívica é a doença crónica, abstenção eleitoral é o sintoma.

A distinta arrogância com que se apropriam da propriedade editorial da RTP – estatutariamente própria das estruturas directivas da estação – deseja ocultar que a estação pública portuguesa serve – e assim deve ser – 10 milhões de cidadãos e muitos mais portugueses espalhados pela geografia mundial.

Por outro lado, é prova cristalina do quanto os dirigentes partidários pensam ser centrais na vida das pessoas.

Só uma ingenuidade fingida – construída e manipuladora – pode alegar que a Antena 1 – os seus jornalistas e corpo directivo – são contra (!) o direito constitucional à livre manifestação. Só ela pode confundir alhos com bugalhos, ironia com sentido literal, trânsito fluido com direito constitucional, stakeholders com core business.

Confundem e fazem-no por razão ideológica: preferem passar a ideia de que o público – os portugueses – são parvos e iletrados, incapazes de distinguir uma árvore da floresta. Não são e sabem o que é ter memória.

Nada desculpa este lapso de ética. Fica mais do que claro que preferem – sob o manto íntimo dos arautos dos direitos populares – a precariedade informativa ao jornalismo independente, aquele com formação ética, equidistante, não-instrumentalizado, o das perguntas difíceis, o que investiga, contrapõe, consegue provas e sabe explicar.

E preferem por uma razão simples: sobrevivem à custa do mau jornalismo.

A mediocridade de um sound-bite talvez seja mais eficaz do que um longo argumentário de razões. Aí, são os jornalistas os primeiros culpados. Assim se desmorona a confiança dos portugueses, assim se constrói um país ficcional, assim se tiram benefícios pragmáticos das crises económicas, assim se fantasia uma inexistente formação ética.

Quem quer um jornalismo independente em Portugal? Comprovadamente, vossas excelências não.

Sorte demográfica sermos 10 milhões e muitos mais. O que significa “opinião plural”. O que quer dizer “incómodo por ter de se ouvir o que contrasta com as nossas convicções”. O que faz lembrar – perdoarão o soundbite – “It’s the democracy, stupid”.

Espero que os jornalistas saibam conquistar e merecer a credibilidade, só ela justifica que esta profissão continue a existir enquanto ofício dos espíritos livres. A coragem deve ser mostrada quando as balas assobiam, não quando se dividem os tesouros conquistados pela pilhagem.

4 Comments

  1. Paulo,

    Percebo a indignação relativamente a alguns comentários exagerados e a alguns aproveitamentos oportunistas.
    Mas importará – a bem de uma análise pausada do assunto – não confundir tudo.
    Assim como, estou certo, ninguém de bom senso e de boa fé confunde os jornalistas da Antena 1 com quem tomou a decisão de encomendar e aprovar a campanha importa não confundir os tais exageros e oportunismos com a crítica a uma opção absolutamente incompreensível.
    O anúncio – e desculpará a discordância – não tem nada de irónico…será tão ironico (guardando as devidas proporções) quanto a tirada do ex-ministro Carlos Borrego sobre as vítimas no famoso caso da hemodiálise; ou seja, é uma piadeca brejeira, na boca ou pela mão de alguém com responsabilidades especiais em espaço público.
    O que me preocupa, se quer que seja absolutamente franco, é que possa existir na RDP – nomeadamente entre as pessoas com poder para tomar decisões sobre como gastar o dinheiro público em publicidade – quem pense que é pela brejeirice que a empresa se impõe. O que me aflige, com franqueza, é pensar que em momentos como este chego a contemplar a possibilidade de dar razão ao senhor do PSD (Morais Sarmento) que, a dado passo, queria reduzir o serviço público a serviços mínimos.
    Eu sou um defensor de um serviço público, responsável, leal, transparente e com uma produção diferenciada dos demais. Mas nada naquele anúncio tem a ver com isto (como tb fez questão de dizer, no próprio dia, o Provedor, Adelino Gomes).
    Um abraço.

  2. Luís, agradeço o comentário. É aliás nestas alturas que se distingue quem tem coragem – e quem dela carece – na assinatura de pontos de vista.

    No que me cabe, não confundo “os tais exageros e oportunismos com a crítica a uma opção absolutamente incompreensível”.

    Sublinho, aliás, que não subscrevo – de longe! – o registo estilístico do anúncio. O que não se confunde com as observações que faço sobre as tendências de controlo sobre o serviço público.

    É óbvio: quem quer ser respeitado, tem de se dar ao respeito.

    Serei sempre o primeiro a concordar que não é – nem poderá ser – “pela brejeirice que a empresa se impõe”, antes pela excelência dos seus conteúdos. Aí, estamos igualmente de acordo.

    Contudo, não me parece que possa ser comparado o grau de gravidade às palavras do citado ministro.

    Este caso põe a claro uma série de sucessivas faltas de coragem, sendo que uma das primeiras é demonstrada pela naturalidade com que se pede a demissão de uma Direcção de Informação.

    Penso que o ciclo eleitoral em curso – à falta de melhores argumentos de governo e oposição – tende a fazer da RTP uma arma de arremesso.

    Uma metáfora para reflexão: como numa peça de teatro chinês, estamos a ver apenas as sombras e não as mãos que as manobram.

  3. Paulo,

    Concordo.
    Mas nunca – em mais de 30 anos de gestão em democracia da RTP – ela deixou de ser isso. Creio que faz parte do ‘pacote’ que é ser prestador de serviço público (aliás, o mesmo acontece noutras democracias europeias).
    Um abraço,

  4. 30 anos de sombras?


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